Você pode enfiar a unha na carne até sangrar, eu não ligo. Eu não ligo mais...
Todos vão morrer um dia, eu, você, "eles". Mas eu não quero morrer sozinha. Tem a Judy, a Aretha e o Gabriel, eles vão comigo e eu fui com eles.
Gabriel sempre teve problemas. Raiva, cachaça, piña colada, tequila, muita bebida forte, deixava meu sofá cheirando a álcool. Quando saía sempre se metia confusão. Pobre Gabriel. Não importava o quanto Aretha tentava aconselhá-lo, ele a mandava calar a boca e não encher o saco. "Vai à merda e não me enche!", era o que ele gritava raivoso, com a cabeça quase enfiada na caneca de cerveja, toda vez que ela o sacudia e tentava fazê-lo voltar pra casa. Aretha tentava protegê-lo, Judy não tava nem aí e dizia: "Se quiser se matar, que se foda!". Eu? Eu chorava sempre no dia seguinte por causa do cheiro do álcool. Era sempre eu que tinha que limpar a sujeira, o vômito no banheiro, a calça suja da sarjeta, a blusa embebida com algo colorido que eu nem queria saber o que era. Talvez nem Gabriel soubesse!
Eram os patos no lago que me faziam sorrir, sozinha, despreocupada, com a mente em branco. Era para onde eu queria ir, para onde eu queria fugir, meu refúgio quando todos eles me sufocavam. Quando a maldita T.P.M atacava mais forte, era pra lá que eu corria.
O apartamento era alugado e era eu quem pagava as contas com o salário de operária. Eu arrumava as coisas enquanto Gabriel dormia e Judy ficava de moleza o dia inteiro. Me irritava a inércia dos dois, mas nunca fui de falar muito ou ficar reclamando. Aretha era um pouco como eu, só que mais confiante, mas ela não passava muito tempo conosco. Quisera eu que o fizesse! Talvez Gabriel não tivesse ido tão longe, talvez...
Eu perdi o emprego numa Quarta-feira cinzenta. Meu chefe tentou me levar pra cama. Já havia tentado outras vezes, me recusei. Trabalhei na fábrica por cinco anos só porque mandei a Judy no meu lugar algumas vezes. Ela não ligava. Não que fosse promíscua, só não fazia diferença. Podia enfiar a unha na carne até sangrar, ela não ligava. Ela não ligava mais. Judy disse pro seu Quaresma que não fazia diferença dormir com ele ou sozinha, não sentia nada mesmo. O velho ficou puto, enfiou-lhe a mão na cara, deixou marcas feias na coitada e depois me demitiu. Me senti culpada por Judy e chorei. Chorava sempre, desde pequena. Uma vez ouvi o médico dizer pra minha mãe que era T.P.M. "T.P.M? Palavra engraçada, Vanessa!", me disse Judy quando ouviu o médico falando. Depois ele fechou a porta do consultório e não ouvimos mais nada.
Mas Gabriel, Gabriel nunca chorava. Esperou que pegasse meu fundo de garantia e depois que cara da Judy desinchou foi até a casa do velho e, com um auxílio de uma barra de ferro, o quebrou inteiro de pancadas. Trancou a mulher e os filhos do Seu Quaresma no banheiro e fez o serviço. "Peguei o sacana direitinho!", se vangloriou ao chegar em casa. Eu chorei, Judy disse que aquilo não faria diferença, Aretha o recriminou e se preocupou com estado do Seu Quaresma. "Agora ta feito", disse Gabriel. E estava mesmo.
No dia seguinte, Aretha ligou pra fábrica, porque eu não tinha coragem, e perguntou por Quaresma. Quando desligou o telefone só consegui se lembrar daquela fala do Mcbeth: "The deed is done" (o ato está feito). Todos teríamos ficado ali se Aretha não tivesse dito que aquilo poderia dar cadeia. Nos apavoramos. Gabriel decidiu fugir antes que chegassem até nós. Aretha tentou ponderar, disse que seria melhor que ele se entregasse e que se explicássemos a situação talvez a coisa se resolvesse, mas Gabriel não queria saber. Ele havia matado o velho e agora tinha que fugir. Eu queria ficar do lado de Aretha, mas àquela época, se enfiasse a unha na carne, não precisava deixar sangrar, doía. A maldita T.P.M só fazia aumentar. Eu precisava sair, me esconder. Se fosse presa seria cúmplice, co-autora, quiçá até mandante. O ato havia sido feito. A unha já estava na carne.
Fugimos com a Aretha quase carregada, a contragosto. A polícia já estava atrás do baixinho que havia matado o diretor da fábrica. Os dias passavam e ficávamos sem lugar pra nos esconder. Gabriel nunca aparecia em público, apenas eu, Aretha e Judy, e a polícia não sabia da gente ainda. Ficamos confinados em quartos de hotéis em Campo Grande, Goiânia, Brasília. Gabriel estava quase ficando maluco, queria sair, mas não o deixávamos. Era preciso controlá-lo. Os telejornais começaram a dizer que a polícia estava na cola do assassino e foi aí que perdemos o controle sobre Gabriel.
Numa noite quente pra caramba ele cismou que queria cerveja. Estávamos fugindo fazia 3 meses e desde então o desgraçado ficara proibido de colocar um gole de álcool na boca. Enquanto nós dormíamos, ele desceu a rua do bairro pobre de Manaus e pediu uma pinga. Como alguém podia tomar cachaça naquele calor infernal? Bebeu e perdeu o controle. Voltou cambaleando e tropeçou nos próprios pés num beco qualquer. Foi parar na cadeia. Aretha quis tirá-lo de lá, mas viu que complicaria ainda mais as coisas. Deus graças a Deus da polícia não ter lhe dado um banho! Só esperaram a bebedeira passar e o liberaram. Não foi fichado nem nada do tipo.
A coisa se complicou quando chegou ao hotel. As pessoas já comentavam à porta que a polícia havia prendido um assassino foragido e que o havia deixado escapar. Gabriel enlouqueceu e fugiu, levando nós três com ele. A polícia nos caçaria até nos encontrar. Por sorte, éramos nós três que o recepcionista do pulgueiro havia visto e quando Gabriel saiu, o homem não estava lá.
O problema é que tivemos de deixar nossas coisas lá, e o dinheiro que Gabriel tinha no bolso, bem, esse já tinha sumido. Pensou que poderia ter sido roubado na rua, ou pelos policias, mas o caso era que naquele momento estávamos totalmente ferrados. A polícia estava chegando perto e não tardaria em nos encontrar.
Nos escondemos na Zona Portuária de Manaus. Fazia um calor absurdo. Acho que foi isso que mexeu com os nossos miolos... ou teria sido a T.P.M? Aretha não parava de dar lição de moral, até a Judy já tava ficando puta da vida com suas reclamações sem fim. Um novo ato seria feito. A T.P.M não é uma palavra engraçada?
Gabriel, ainda puto da vida, teve uma idéia enquanto descascava uma maçã com uma faca velha e suja que tinha encontrado lá: se tivesse um refém, o deixariam em paz. Uma de nós poderia ser a refém, só para a polícia dar uma folga. Mas éramos cúmplices e não reféns. Descobrimos com Gabriel que a diferença está nos olhos de quem vê. Ele pegou a mão esquerda de Aretha, a colocou sobre uma caixa de madeira e cortou-lhe o polegar.
Aretha chorava, gritava e se debatia. Eu sentia sua dor me rasgando a alma, me dilacerando. Ela nos abandonaria assim que tivesse a chance. Como deixamos que ele fosse tão longe?
Ele queria um papel e uma caneta e os arranjou na mesa de um fiscal da Zona Portuária, mas sujou todo o papel de sangue enquanto escrevia. Eu mesma fui pegar outro papel pra acabar com aquela agonia. Escrevi com a mão direita, porque ao contrário de Gabriel, sou destra. Deixamos o recado de que tínhamos uma refém e o dedo dela, pra provar, sobre a mesa do fiscal. Acho que Aretha já havia nos deixado, mas eu ainda tinha esperança de que ela voltasse. Andamos sem destino por algumas horas, encontramos uma capela abandonada no meio do mato e apagamos ali por 3 dias. Só acordamos quando a polícia chegou. Não lembro direito como foi, só lembro de ter sido carregada por um policial e da voz de Gabriel gritando no meu ouvido: "a puta nos entregou!".
T.P.M. Foi a primeira palavra que ouvi ao acordar no hospital. Tinha um policial me olhando com cara de bobo, enquanto um outro falava com o médico. Fiquei calada, com os olhos semi-cerrados, T.P.M entrando por meus ouvidos, como quando eu tinha 8 anos. Depois de falar com o médico, o policial perguntou meu nome. Respondi Vanessa. Depois o médico começou a me fazer um monte de perguntas. Sim, eu sofri de dores de cabeça fortes. Não, eu não saía do ar depois acordava, pelo menos nunca havia acontecido antes da polícia nos achar. "Nos" achar. "VOCÊS quem?", perguntou o policial. "Eu, Gabriel e Judy", respondi. "E quanto a Aretha? Ela é sua amiga?", perguntou o médico. "Ela dedurou a gente!", gritava Gabriel, mas eu não queria ouvi-lo. "Sim, mas ela foi embora", respondi. "Ela avisou a polícia onde estavam, disse que foi o dedo dela que você cortou", continuou o médico. "Eu não, Gabriel". "Já chega dessa palhaçada!", berrou o policial. O médico pediu que ele se retirasse, o outro ficou no quarto, ainda me olhando com cara de bobo.
Quando o médico voltou, notou que eu não havia entendido nada do que estava acontecendo. Perguntou-me se eu já havia ouvido falar em Dissociação de Personalidade. Respondi que não. Ele disse que quando uma pessoa se olha no espelho vê seu reflexo como se o espelho estivesse quebrado. Pode haver duas partes ou mais, fragmentos, pedaços da mesma pessoa. Cada pedaço adota um nome, uma personalidade, um estilo de vida. A personalidade principal desconhece as demais e essas personalidades atuam alternadamente. Disse que no meu caso as personalidades interagiam entre si. Achei aquela baboseira toda ridícula, eu não tinha nenhuma dissociação de personalidade. Gabriel, eu, Judy e Aretha éramos pessoas diferentes. Mas o doutor me retrucou dizendo que éramos pessoas diferentes habitando a mesma mente. Ri, não, gargalhei. E chorava. Como aquilo seria possível? Eu tinha lembranças.
Foi então que o médico olhou pra baixo e eu vi minha mão esquerda. Deus, senti meu sangue todo ir pra boca e mesmo assim ainda a sentia seca! Meu polegar estava faltando. Mas não era o meu polegar, era o polegar de Aretha, que chorava e dizia ao médico: eu tentei fazê-los parar, eu tentei, eu tentei...
As lembranças vieram...o médico, a mãe.
"Carolina...doença...T.P.M...abuso sexual..."
"Absurdo! Louco! Minha filha...tocada...jamais!"
A mãe de Carolina não ouvia o médico. Também não ouvia a filha chorar à noite quando seu marido abusava de sua criança. A mãe de Carolina não ouvia, não via, não queria saber. Foi assim que conseguimos engolir a pequena Carolina, pois quando ele cravou as garras na sua carne macia de criança, doeu.
"T.P.M? Palavra engraçada!". Transtorno de Personalidade Múltipla.
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